terça-feira, 5 de abril de 2016

Sobre sonhos e loucos 1 - Sobre mim.

Como dito previamente nesse blog, eu nasci em lar cristão. Meu pai se converteu um pouco antes do meu nascimento, em um trem, lendo O mais importante é o amor, e minha mãe seguiu o seus passos (Mas a conversão real dela se deu muito tempo mais tarde).

Aos quinze anos eu decidi me batizar e não consigo me lembrar se pelos motivos certos, ou por certo apelo ou vontade de fazer parte de um grupo. Aos 21 eu deixei a igreja. Não que eu estivesse efetivamente lá antes disso. Por muito tempo eu a frequentei obrigada pelos meus pais. Só podia ficar em casa em caso de morte (De preferência a minha morte).
Eu gostava da igreja, não me entendam mal. Por ser uma igreja pequena, o ambiente era totalmente familiar. Todo mundo se conhecia intimamente. Frequentava a casa um do outro. E as pregações com frequência eram "quentes", e quando digo quentes quero dizer, não sei bem como explicar, eram pregações que moviam alguma coisa. Talvez exemplificando o contrário de pregação quente eu consiga me fazer entender. Existem homens, homens piedosos, eu imagino, que pregam com muita qualidade técnica, mas com palavras secas, aquele tipo de pregação enxuta em que você aprende muita coisa, mas não desperta a vontade de viver aquilo tudo daquele dia em diante. (Não quero dizer pregação sem fogo porque alguém pode quicar aí falando em línguas e eu tenho medo) Eu tinha inclusive um crush gospel. Um rapaz que cheirava a biscoito de limão e tinha um tique nervoso tão terrível que assustava até cachorro.

Prosseguindo, esse era o meu grande problema, eu curtia a igreja, mas nunca tive (E estou consciente de ainda não ter) amor pelo Bom Pastor. Era lindo ver aquelas pessoas de mãos erguidas, sentindo a presença do Mestre, mas eu nunca senti nada diferente aqui dentro (Estou apontando pra minha caixa torácica agora). Eu nunca ouvi a voz de Cristo falando comigo. Antigamente eu até esperava uma voz audível, como humana (Cheguei inclusive a passar um tempo maior do que o recomendável/saudável observando meus gatos na esperança, sei lá, que algum deles começasse a falar e me mandasse alguma mensagem como fez a jumentinha de Balaão), depois, com um pouco mais de maturidade, eu passei a ler a bíblia ansiando que ela falasse ao meu coração, ou que se tornasse a palavra viva da qual meus pais tanto falavam, mas eu nunca tive essa experiência e admito, não sem pesar, que chegava a ser enfadonho passar tempo lendo todos aqueles capítulos densos que eu mal entendia e muito menos apreciava (E as genealogias???? Remenéias!!!). Sempre que eu queria ouvir algo da parte de Deus esperava que Ele dissesse a outra pessoa, mais confiável e espiritual do que eu e essa pessoa santa viesse posteriormente me dizer "Ó, o Senhor disse..."

Até hoje eu acho muito difícil que Deus tenha assuntos a tratar diretamente comigo. E nas poucas vezes em que meu coração palpitou achando ter sido atingido por uma palavra direto do céu em sua direção (Quando após uma oração ele abriu a bíblia e achou capítulo x que batia certinho com a situação em que se encontrava), eu fiz o que qualquer pessoa sensata faria no meu lugar, joguei um balde de água fria sobre o safado. Porque vamos ser sinceros. Sou eu. Uma das piores pessoas dessa Terra. Um ser humano que premedita seus pecados. Que conhece (De ouvir) o bom caminho e não quer de forma alguma seguir por ele. E o testemunho do coração que achou ter sido instruído por Deus nesse caso não é melhor do que o meu. Um coração enganoso. Um coração infiel. Alguém em quem não posso confiar. (Nesses meus 28 anos só existiu uma forma de comunicação que eu sabia ser da parte de Deus na minha vida. E sobre ela falarei mais para frente)


O lance é que eu sempre fui cagona. Sempre deixei de pecar por medo das consequências (Nunca por ser maldade contra Cristo) e sempre abri mão das minhas vontades porque achava que meus pais se decepcionariam demais se soubessem quem eu era no fundo (Uma pecadora como todos os outros!). O que falta em mim de coragem e viço sobra no meu irmão, que apesar de ser um cara super pacato e integrante do "Deixa Disso Futebol Clube", tem posicionamentos sólidos e a bravura de chamar dois adultos para uma conversa e dizer "Não vou mais à igreja!" - Peguei carona no bonde e em voz trêmula fiz coro com o brother "Também não quero mais!". Conseguíamos ali a nossa carta de alforria. Meu pai disse que já tinha feito tudo o que estava ao seu alcance. Ele nos ensinou o caminho pelo qual deveríamos andar, nos apresentou Cristo e nos educou tendo o cristianismo como base. Estava de mãos lavadas. A mãe foi menos ortodoxa e disse "Já que você vai pro inferno mesmo, pelo menos vive uma vida feliz!"
Agora eu estava entregue ao mundo - E o que o mundo tinha para me dar?



sábado, 23 de janeiro de 2016

Do Sofrimento

O tema sofrimento é sempre uma angustia para a alma. Ninguém quer sofrer. E o sofrer é parte ampla da vida de qualquer cristão. O Nosso Senhor já tinha nos (E me permitam aqui me incluir no meio do povo santo) dito que teríamos aflições no mundo. Enquanto o mundo se regozija, feliz em seus maus caminhos, nossa guerra é diária. Lutamos contra nós mesmos e contra o mundanismo (Leia-se mundanismo como as práticas consideradas normais para esse mundo, o desafeto dirigido àqueles que professam a fé em Cristo e, claro, a vontade de nossa carne de voltar à lama).
Não somos os primeiros a observar essas discrepância. Se somos filhos por adoção de Deus não deveríamos receber única e exclusivamente felicidade? Qual resposta se torna adequada para dar a alguém que leva uma vida desregrada e próspera enquanto eu, que "faço tudo certo", vivo em necessidade, dependendo de caridade? Que tipo de testemunho eu terei diante dos ímpios? (O crente televisa: "O que eles vão dizer, papai?")

O próprio salmista defronta o dilema no Salmo 73:

"Quanto a mim, os meus pés quase que se desviaram; pouco faltou para que escorregassem os meus passos.Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios."

Ontem mesmo eu estava triste, me isolei e chorando eu perguntava ao Senhor por que Ele havia dado tanta felicidade a uns e a mim, parecia esmagar meus ossos dia e noite, sem descanso. Quis ficar sozinha. Fui assistir Tv (Quer solidão maior?). Mudando de canal encontrei o filme Deus Não está morto. Já havia assistido antes, mas estou numa vibe "Se falar de Deus eu tô dentro". 

Bom. No filme existe um homem, um executivo bem sucedido (Interpretado pelo Superman daquela série horrível de tv dos anos 90), cuja mãe esta doente, tem demência, eles chamam demência na dublagem, mas imagino que seja Alzheimer. Os dois não tem muito contato, mas após encontrar sua irmã e atendendo a um pedido dela, Superman vai visitar a doce senhora.

E sentado numa cadeira atrás da velha, olhando para ela, ele diz:

"Eu nem mesmo sei o que eu tô fazendo aqui. Você nem deve saber quem eu sou.
Você orava e acreditava e isso a sua vida toda. Nunca fez nada errado.
E aqui está. É a pessoa mais bondosa que eu conheço e eu sou o mais cruel. Você tem demência, já a minha vida, ela é perfeita. Explica isso pra mim."

E após um breve silêncio doce senhora começa a falar:

"Às vezes o diabo deixa as pessoas viverem a vida sem problemas porque não quer que recorram a Deus. Seu pecado é como uma cadeia só que tudo é lindo e confortável não há necessidade de sair. A porta está aberta. Até que um dia o tempo se esgota e a porta da cela se tranca, então, é muito tarde."

Além duns arrepios, porque a gente tem disso, né?, tem uns "mistéros" que arrepiam, essa frase me trouxe um monte de informação à cabeça. Eu nem sei se vou conseguir colocar tudo em ordem. Não sei se vou me fazer entender ou se vou lançar alguma heresia/interpretação errada no meio do texto. Não sou teóloga. Não posso nem dizer com 100% de certeza se sou ou não cristã, mas no que direi a seguir eu confio. 

Eu gostaria muito que a essa altura do campeonato vocês conhecessem Spurgeon, príncipe dos pregadores, um grande homem de Deus, e lessem, ainda que perdoando sua noção de livre arbítrio, os livros do Senhor C.S.Lewis, começando por O problema do sofrimento (Os livros de C.S.Lewis você podem encontrar aqui).

Em Spurgeon, no texto, Tua covardia diante do mundo é puro desprezo a Deus! - C. H. Spurgeon existe um trecho que eu gosto muito, e do qual procuro sempre me lembrar, que diz:

"Irmãos amados, lembrem-se, onde houver grande amor, com certeza, haverá grande ciúme. "Amor é tão forte quanto a morte" (Ct 8.6). O que vem em seguida? "O ciúme é tão inflexível quanto a sepultura". "Deus é amor" (1Jo 4.8,16) e exatamente por essa razão "o SENHOR, o seu Deus, é Deus zeloso; é fogo consumidor" (Dt 4.24). (...)"


E o que tudo isso quer dizer?

A resposta parece ser a melhor que poderíamos receber. A verdade é que Deus prova novamente o seu amor quando nos permite sofrer para que não sejamos consumidos no dia da ira vindoura. Os métodos de aproximação do Senhor nem sempre são ortodoxos, e com isso não quero dizer que são errados, desonestos ou ilegais, quando penso em não ortodoxos nesse contexto, minha mente divaga na ideia humana de que amar significa sempre fazer o bem, fazer o bem sendo traduzido como realizar todos os desejos para manter a pessoa feliz. Entretanto, quem tem filhos, e quem é filho, sabe que o Não faz parte da educação, e apesar de causar revolta, raiva e não ser entendido de imediato, os frutos serão colhidos no futuro, e com a maturidade vem, se não o total, pelo menos o parcial entendimento e finalmente a resignação e porque não a felicidade pela repreensão. (Testemunho de alguém que já foi livrado de várias rabudas nesse lance de negativas)

Na linguagem do gueto:

Irmãos amados, lembrem-se, se o Senhor tiver que cortar suas duas perninhas para te trazer de volta (Ou te manter junto a Ele), Ele vai, e é por amor. Porque Ele nunca vai ter dar o que você quer, Ele lhe dará apenas aquilo que você precisa.
Vamos lembrar de Paulo que orou ao Senhor por três vezes e recebeu como resposta "A minha graça te basta". E após isso foi capaz de se gloriar em suas fraquezas, pois "é na fraqueza que se revela totalmente a minha força" (2 Coríntios 12:9). 

Está aqui falando com vocês uma pessoa que já orou um 100 número de vezes pedindo ao Senhor para fazê-la mais forte. "Senhor, eu não quero mais ser de forma x", "Senhor, me fortalece, esse lance só me traz sofrimento", e que só a pouco tempo pode vislumbrar, ainda que longinquamente, a quantidade de vezes que foi obrigada a virar os olhos na direção de Cristo através da dor que tal fraqueza vira e mexe lhe proporciona. Dessa forma essa pessoa pode ir além e imaginar um universo paralelo. Um universo onde sua historinha de amor deu certo. Onde ela alcançou o que almejava e sob essa perspectiva ela percebeu que não tem certeza se estaria onde está hoje, orando, lendo a bíblia, falando incessantemente sobre o evangelho (Quando alguém está disposto a escutar. rs), ainda que não totalmente compreendido por ela, ansiando por irmãos com o mesmo pensamento/sentimento com os quais possa dividir suas angustias, invejando a igreja primitiva, tocando a língua na amargura de sua total depravação e decadência.

Nem sempre o caminho feliz é o melhor caminho.

Não que a ideia de sofrer me traga qualquer alento. Tenho pavor. E esse pavor flui com mais intensidade quando vou orar pedindo ao Senhor que me ensine alguma coisa. Já fico imaginando a queda antes da aprendizagem e às vezes hesito no pedido. Queria aprender com rosas, chocolate, unicórnios e tudo que há de bom. Mas aqueles que creem trazem consigo o conforto do amor de Deus. Eles podem se lembrar de Cristo compadecido da multidão faminta, procurando alimentá-la antes que desfalecesse (Você não vai morrer!). Eles podem firmar seus pés nas promessas "Não cessarei de lhes fazer o bem/Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus" (Ele te ama!). E finalmente, o mais profundo dos mistérios, em meio a lágrimas e dores de parto, você vai perceber seu coração feliz, firmado na rocha que é Cristo, se alimentando da Esperança de um dia estar finalmente em seus braços. (Porque aonde Ele estiver, nós também estaremos).