Aos quinze anos eu decidi me batizar e não consigo me lembrar se pelos motivos certos, ou por certo apelo ou vontade de fazer parte de um grupo. Aos 21 eu deixei a igreja. Não que eu estivesse efetivamente lá antes disso. Por muito tempo eu a frequentei obrigada pelos meus pais. Só podia ficar em casa em caso de morte (De preferência a minha morte).
Eu gostava da igreja, não me entendam mal. Por ser uma igreja pequena, o ambiente era totalmente familiar. Todo mundo se conhecia intimamente. Frequentava a casa um do outro. E as pregações com frequência eram "quentes", e quando digo quentes quero dizer, não sei bem como explicar, eram pregações que moviam alguma coisa. Talvez exemplificando o contrário de pregação quente eu consiga me fazer entender. Existem homens, homens piedosos, eu imagino, que pregam com muita qualidade técnica, mas com palavras secas, aquele tipo de pregação enxuta em que você aprende muita coisa, mas não desperta a vontade de viver aquilo tudo daquele dia em diante. (Não quero dizer pregação sem fogo porque alguém pode quicar aí falando em línguas e eu tenho medo) Eu tinha inclusive um crush gospel. Um rapaz que cheirava a biscoito de limão e tinha um tique nervoso tão terrível que assustava até cachorro.
Prosseguindo, esse era o meu grande problema, eu curtia a igreja, mas nunca tive (E estou consciente de ainda não ter) amor pelo Bom Pastor. Era lindo ver aquelas pessoas de mãos erguidas, sentindo a presença do Mestre, mas eu nunca senti nada diferente aqui dentro (Estou apontando pra minha caixa torácica agora). Eu nunca ouvi a voz de Cristo falando comigo. Antigamente eu até esperava uma voz audível, como humana (Cheguei inclusive a passar um tempo maior do que o recomendável/saudável observando meus gatos na esperança, sei lá, que algum deles começasse a falar e me mandasse alguma mensagem como fez a jumentinha de Balaão), depois, com um pouco mais de maturidade, eu passei a ler a bíblia ansiando que ela falasse ao meu coração, ou que se tornasse a palavra viva da qual meus pais tanto falavam, mas eu nunca tive essa experiência e admito, não sem pesar, que chegava a ser enfadonho passar tempo lendo todos aqueles capítulos densos que eu mal entendia e muito menos apreciava (E as genealogias???? Remenéias!!!). Sempre que eu queria ouvir algo da parte de Deus esperava que Ele dissesse a outra pessoa, mais confiável e espiritual do que eu e essa pessoa santa viesse posteriormente me dizer "Ó, o Senhor disse..."
Até hoje eu acho muito difícil que Deus tenha assuntos a tratar diretamente comigo. E nas poucas vezes em que meu coração palpitou achando ter sido atingido por uma palavra direto do céu em sua direção (Quando após uma oração ele abriu a bíblia e achou capítulo x que batia certinho com a situação em que se encontrava), eu fiz o que qualquer pessoa sensata faria no meu lugar, joguei um balde de água fria sobre o safado. Porque vamos ser sinceros. Sou eu. Uma das piores pessoas dessa Terra. Um ser humano que premedita seus pecados. Que conhece (De ouvir) o bom caminho e não quer de forma alguma seguir por ele. E o testemunho do coração que achou ter sido instruído por Deus nesse caso não é melhor do que o meu. Um coração enganoso. Um coração infiel. Alguém em quem não posso confiar. (Nesses meus 28 anos só existiu uma forma de comunicação que eu sabia ser da parte de Deus na minha vida. E sobre ela falarei mais para frente)
O lance é que eu sempre fui cagona. Sempre deixei de pecar por medo das consequências (Nunca por ser maldade contra Cristo) e sempre abri mão das minhas vontades porque achava que meus pais se decepcionariam demais se soubessem quem eu era no fundo (Uma pecadora como todos os outros!). O que falta em mim de coragem e viço sobra no meu irmão, que apesar de ser um cara super pacato e integrante do "Deixa Disso Futebol Clube", tem posicionamentos sólidos e a bravura de chamar dois adultos para uma conversa e dizer "Não vou mais à igreja!" - Peguei carona no bonde e em voz trêmula fiz coro com o brother "Também não quero mais!". Conseguíamos ali a nossa carta de alforria. Meu pai disse que já tinha feito tudo o que estava ao seu alcance. Ele nos ensinou o caminho pelo qual deveríamos andar, nos apresentou Cristo e nos educou tendo o cristianismo como base. Estava de mãos lavadas. A mãe foi menos ortodoxa e disse "Já que você vai pro inferno mesmo, pelo menos vive uma vida feliz!"
Agora eu estava entregue ao mundo - E o que o mundo tinha para me dar?

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